quinta-feira, julho 03, 2003

ANTÓNIO VARIAÇÕES 19 anos depois da sua morte…

Manuel Araújo


António Joaquim Rodrigues Ribeiro, nasceu no Minho, Fiscal, uma pequena, verde e pacata freguesia de gente afável, muito perto da estância termal de Caldelas no Concelho de Amares, no dia 3 de Dezembro de 1944. Era filho de Deolinda de Jesus, falecida há dias e de Jaime Ribeiro, também falecido.


O começo

Contou-nos a mãe, Deolinda de Jesus, recentemente falecida, que durante os estudos primários, concluídos na escola local, ajudava nos trabalhos da terra, mas sempre que podia “escapulia-se” para todo o sítio onde houvesse uma feira, romaria ou festa. O “bichinho” da música herdara-o de seu pai que também tocou acordeão e cavaquinho.

O “Tonito” – era assim que lhe chamava a mãe– depois de terminar a escola primária, experimentou ainda um emprego na oficina de quinquilharias do "Caco" em Caldelas, desistindo pouco tempo depois. Sonhava com outros horizontes, assim, e apenas com 12 anos, rumou em direcção a Lisboa para casa de uns primos, terra de sonhos e das oportunidades. Começou como marçano, que não era o que desejava, para alguns meses mais tarde conseguir um trabalho num escritório. Esteve na capital até á idade da tropa para ser destacado para Angola. Cumprido o serviço militar, regressou para pouco tempo depois partir para Londres, onde tinha um irmão, o José, e onde começou a trabalhar como empregado de mesa.

© DR
Nasce o António Variações

Em 1976, ano do falecimento de seu pai, regressou a Portugal para partir de novo, mas desta vez o destino levou-o até Amsterdão, Holanda, onde frequentou durante um ano um curso de cabeleireiro. Voltou a Lisboa para começar a exercer a sua nova profissão. Durante o dia trabalhava num salão de cabeleireiro e á noite, juntamente com o grupo musical “Variações”, dedicava-se à sua paixão de sempre , a música. O nome “António Variações”, provém do grupo com quem começou a cantar.
A sua primeira aparição em público, foi na feira popular de Lisboa, num programa da Rádio Renascença, com os UHF de Manuel António Ribeiro.

A Moda

O António era diferente, não ligava à moda, — a moda torna as pessoas todas iguais — dizia ele. Tinha um gosto muito peculiar de se vestir, que alguns classificaram de sofisticado, excêntrico, extravagante e ridículo, mas o António foi persistente, seguiu o seu próprio caminho e venceu, até que começou a ser imitado, hoje, qualquer um usa brincos...


O estrelato

Em 1978 assinou um contrato com a editora Valentim de Carvalho, mas só quatro anos mais tarde é que gravou o seu primeiro trabalho, “Povo que lavas no rio”, um tema bem conhecido de Pedro Homem de Melo e imortalizado pela saudosa Amália . “Estou Além”, é um outro tema da sua autoria. No ano seguinte, editou “Anjo da Guarda”, que o catapultou definitivamente para o estrelato nacional.
Foi entregue á família, a título póstumo, um "disco de platina" referente ao trabalho " O melhor de António Variações", resultado da venda de mais de 40 mil exemplares, o qual nos foi orgulhosamente exibido pelo irmão Carolino.
No final de 2000, foi reeditado um novo CD, "Dar & Receber" com um tema inédito do António Variações, esgotando-se assim o seu legado vocal.

A família e os amigos

O António sempre visitou regularmente a mãe e os amigos em Fiscal, a família era para ele tudo. Não havia entrevista alguma que ele não falasse da mãe, dos irmãos e das irmãs. O António era o 5º filho, dos dez que a Deolinda de Jesus teve.
Na sua terra natal, era sem vaidade nem vedetismo que se misturava com os amigos e conhecidos, que o recordam com imenso orgulho e saudade.

O trabalho, a doença e o fim

Apareceu em inúmeros programas de Televisão e da Rádio, mas foi no programa “ A festa continua “ do Júlio Isidro - do qual era também amigo e cliente da barbearia - que apareceu na TV pela última vez. Semanas mais tarde, o António foi internado no hospital Curry Cabral, com complicações que se agravaram vertiginosamente. Broncopneumonia Bilateral Extensa, foi a doença que lhe foi diagnosticada, perdendo em poucos dias 20 quilos. O António, viria a falecer na madrugada do dia de Santo António, 13 de Junho de 1984. Tinha 39 anos e foi a primeira personalidade pública que se suspeita ter morrido de sida em Portugal.
No velório, na Basílica da Estrela em Lisboa, foram muitos que lhe quiseram prestar a última homenagem e o último adeus ao seu ídolo. Estiveram também presentes, além de outros, os “Heróis do Mar”, a Lena d´Água, a Maria da Fé e a sua grande amiga Amália Rodrigues, com ele chegou a actuar em 1983 na Aula Magna da Universidade de Lisboa e tinha pelo António um carinho muito especial.
O corpo do António, foi transladado para Fiscal, Amares, sua terra natal, onde está sepultado e ainda nos dias de hoje continua a ser visitado por gente anónima oriunda um pouco de todo o país.

O reconhecimento

Em Amares, existe já uma rua com o seu nome, mas, a Assembleia Municipal em deliberação camarária, de Junho de 2002, por proposta da deputada Raquel Mendes e por unanimidade, deliberou homenagear o António Variações, no próximo ano de 2004, em data ainda incerta.

Para organizar a homenagem, foi criada uma comissão, composta por várias individualidades do Concelho. Dessa comissão, faz parte o presidente da Junta de Freguesia de Fiscal, Sr. Bernardino, com quem falamos e se mostrou “ bastante preocupado”, porque “falta menos de um ano e ainda está quase tudo por fazer”, disse-nos, apreensivo.

Segundo nos afirmou, “a Câmara, não tem possibilidades financeiras para suportar os custos da homenagem, existem outras prioridades”, por esse motivo, “apelo à união de todos, Câmara, membros da Comissão, Empresas, Comunicação Social e todos os particulares, para que comecemos a trabalhar juntos e possamos fazer a homenagem em meu entender, tardia, mas merecida, ao homem, que viveu no tempo errado. Se fosse hoje, seria certamente melhor compreendido”, conclui.

Entre outras iniciativas, que pensam levar a efeito, consta uma homenagem nos Paços do Concelho, concertos e exposições.
Também, na freguesia de Fiscal, num largo que irá ter o nome do artista, será erigido um busto.
Igualmente e um pouco pelo país, estão previstas outras iniciativas.



ACTUALIZAÇÃO



Busto erigido em Fiscal - Amares

© Manuel Araújo

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